sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Gramática em Chuabo será tese de doutoramento



Texto e fotos: Estacios Valoi
02/09/11
Da Franca a Moçambique a pesquisadora de origem francesa Rozenn Guerois que esteve em Moçambique durante três meses num trabalho mais aprofundado em torno da Língua Chuabo, tenciona produzir uma gramática num período de cerca de 3 anos.
Rozenn na fase de doutoramento pela Universidade Lyon Lumiere na Franca e, pela primeira vez na Zambézia, escolheu como tema de defesa do seu doutoramento a língua Chuabo, algo que encantou aos idosos, professores e outros curiosos que terão sua a língua gramaticada.
Actualmente e segundo fontes existe um dicionário Chuabo - Português, uma bíblia e três livros de ensino destinados a escolas de ensino bilingue no nível primário nas únicas que existem que são as e Mugogoda e Maquival na província que mais se fala Chuabo.
Apesar de existirem alguns registos académicos produzidos por docentes na Zambézia em coordenação com os Padres Capuchinhos e o Instituto Nacional do Desenvolvimento da Educação (INDE), o Chuabo continua sendo, de entre muitas, uma das línguas que todavia não foi estudada na sua amplitude.
Rozenn Guérois começou a fazer o levantamento linguístico para a sua tese que vai culminar com a produção da gramática, percorrendo Namwinho e Maquival e escalando cada vez mais as zonas onde se falam as diversas variantes do Chuabo como o Maindo no distrito de Chinde e o Karungu em Inhassunge.
Não em Chuabo mas em português, eis o retrato da entrevista com a pesquisadora.
EV - A quanto tempo nesta pesquisa em torno da Lingua Chuabo?
RG - Comecei a minha pesquisa na França em Outubro 2010, percorrendo a literatura existente a cerca das línguas Bantu em geral. Cheguei cá em Moçambique no final de Maio para fazer um levantamento linguístico do Chuabo. Até agora, tenho percorrido os distritos de Quelimane e de Inhassunge, também fui a Chinde por alguns dias, e actualmente estou pensando em Macuze no distrito de Namacurra como próximo destino.
EV - Porque a escolha destas áreas ou distritos?
São áreas onde se fala a língua Chuabo e suas variantes. A gramática que tenciono fazer focará mais sobre o Chuabo falado na zona de Maquival e Mugogoda, considerada como mais “central” dentro da área Chuabo. Mas também me interessa estudar as diversas variantes do Chuabo a fim de observar como a língua fica influenciada por outras línguas segundo a área geográfica em que se situa. É por exemplo o caso do Chuabo Maindo, falado em Chinde, que possui muitas características da língua Sena, falada na província de Sofala.
Porque exactamente a Língua Chuabo?
RG - Ate agora a língua Chuabo não foi realmente estudada, de maneira aprofundada. Em comparação aos outros grupos linguísticos, a família Bantu foi relativamente bem explorada pelos estudiosos, no entanto, ainda existem línguas pelas quais até hoje temos poucas informações. É o caso do Chuabo. Existe sim uma gramática que foi feita pelos Capuchinhos há trinta anos mas não representa um estudo exaustivo da língua: faltam muitos elementos para serem levantados e analisados.
Na linha Bantu em que contexto e posição esta a língua Chuabo?
RG – Segundo o inventário de Guthrie, feito no final dos anos 60, o Chuabo faz parte do grupo linguístico P30, que representa a família Emakua. Assim, P31 serve para designar o Makua, P32 o Lomwe, P34 o Ngulu e P34 o Chuabo. Assim e segundo essa classificação, o Chuabo é considerado como uma língua-irmã do Lomwe-Makua. No entanto, o pouco de dados que já sabemos sobre a língua Chuabo deixa pensar que a sua classificação não é tão simples na medida em que alguns elementos o assemelham ao Sena que já faz parte de um outro grupo (N40). Assim, na base de uma descrição linguística e de uma comparação com as outras línguas vizinhas, inclusive o Sena, eu vou tentar esclarecer as relações entre elas, e assim precisar e afinar a classificação linguística já existente.
Neste contexto que significa a letra P?
RG – A letra P não tem um significado específico, faz parte de um sistema completamente arbitrário - mas que não deixa de ser muito útil - de classificação das línguas Bantu, feito por Guthrie no final dos anos 60 como já disse. A partir de um estudo comparativo das línguas Bantu, Guthrie forneceu uma classificação das línguas por zonas linguísticas, atribuindo uma letra por grande zona geográfica de propriedades linguísticas comuns. O inventário vai da letra A até a letra S.
Qual foi a recepção das pessoas com quem foste cruzando pela Zambézia?
RG – Os professores da escola de Mugogoda estão bastante entusiastas pelo meu projecto e reconhecem que uma gramática Chuabo será um instrumento muito valioso, sobretudo no âmbito do ensino bilingue em que a escola se inscreve desde 2003 se não me engano.
Do resto, as pessoas com quem trabalho estão muito felizes e ficam admiradas que uma pessoa de fora se interessa pela língua local, principal veículo da cultura delas. Apreciam também a ideia de registar os dados no papel: um livro sempre poderá servir às gerações futuras.
Com quem você tem trabalhado até agora?
RG - Trabalho sobretudo com pessoas idosas e que vivem fora da cidade de Quelimane, em localidades onde não se percebe tanto a influência do Português sobre o Chuabo. Aquele que tenho visto com regularidade vem de Namwinho e Maquival. Prefiro trabalhar com idosos porque têm um melhor domínio da língua Chuabo: ainda se lembram de palavras e expressões que os jovens já não usam; ainda carregam elementos de cultura dos seus ancestrais pelos quais as novas gerações infelizmente não se interessam hoje.
Que impacto na sociedade Zambeziana?
RG - O doutoramento em si é um trabalho muito teórico, não sei se vai ter muito impacto na sociedade, mas queria muito envolver isto e fazer uma gramática compreensiva para a comunidade. Isso faz ainda mais sentido hoje em dia no contexto da implementação do artigo XXVI da Declaração dos Direitos Linguísticos, que entende facilitar o ensino bilingue nas escolas primárias, o que já está sendo aplicado e avaliado nas aldeias de Mugogoda e Maquival, perto da cidade de Quelimane. Já foram elaborados três livros, dois de aprendizagem da escrita para as primeira e segunda classes e um de matemática. Acredito que uma gramática será muito bem-vinda, tanto para auxiliar o próprio professor nas aulas, quanto para ajudar qualquer falante interessado pela sua língua a fixar as regras constitutivas do idioma.
Existem daqueles pesquisadores pela Europa que escrevem o que lhes vem na cabeça a primeira vista sem uma pesquisa profunda sobre a África… Qual é a tua opinião?
RG – Aí, você está a se referir a trabalhos de cunho mais antropológico. Nesse caso, acho muito importante diferenciar um trabalho de pesquisa e um relatório de viagem de exploração, em forma de literatura de aventura com carácter autobiográfico. Esse tipo de literatura exótica existe muito nos países ocidentais, mas não presto muita atenção nela, porque o conteúdo é muitas vezes subjetivo demais. Se quiser conhecer a maneira de viver de uma certa etnia por exemplo, eu prefiro mil vezes ler um trabalho científico, feito por um pesquisador de profissão que vai tratar de fazer um levantamento neutro de dados, ou seja, de maneira objectiva, sem preconceito nenhum. É isso mesmo, um bom pesquisador deve ser capaz de fazer abstracção das suas próprias referências culturais e ver o objecto de estudo com olhos novos. Não são todos que trabalham assim infelizmente. Então, quando leio um trabalho de natureza sociológica, costumo verificar quem é o autor, quais são as suas referências, qual é sua formação, qual bibliografia usa para seu trabalho. Muitas vezes, pode permitir uma primeira avaliação do trabalho.

5 comentários:

  1. As zonas escolhidas para o estudo são proprícias para o Chuabo, más falta uma outra que seria indispensável - localidade de Namacata, fala se um Chuabo central.

    ResponderEliminar
  2. Olá Estácio, sou um professor português aposentado, sem conhecimentos das etnias moçambicanas, e gostava de trocar ideias com a Rozzen. Podes me dar um email? O meu é guerreiro@t-online.de

    Obrigado,
    abraço
    Raul

    ResponderEliminar
  3. Vejo que ja passao dois anos. sera que ja ha resultados desse estudo?

    ResponderEliminar
  4. sou estudante de Linguistica Bantu preciso de interragir com alguem que fala bem o Echuwabo. meu contacto: 825441580/848504270

    ResponderEliminar
  5. sou estudante de Linguistica Bantu preciso de interragir com alguem que fala bem o Echuwabo. meu contacto: 825441580/848504270

    ResponderEliminar