domingo, 27 de agosto de 2017

De Moçambique para a China - Dinheiro fala mais alto





Estacio Valoi 
22 Agosto  2017  Oxpeckers Reporters
Mais de 90% da madeira moçambicana é exportada para a China com menos valor do custo real. Estacio Valoi expõe a colisão existente entre agentes-Despachantes, funcionários aduaneiros e gestores portuários

Enormes quantidades de madeira indígena são transportadas de Moçambique à China através dos portos das regiões Centro e Norte do país, como o Beira e Nacala. Depois de receber informações de funcionários do porto, o jornalista testemunhou factos de exportação ilegal envolvendo agentes Despachantes e funcionários das alfândegas em colisão com Administradores do porto.

 
Caminhões carregados de madeira trabalhada e em toros a caminho do porto do norte. Fotos: Estacio Valoi

Investigações com duração de um ano revelaram que uma empresa com altas ligações com o Ministro de Transportes e Comunicação, Carlos Mesquita sobressaiu no centro destas actividades no porto da Beira: A Rotterdam-based Cornelder Holdings. Desde 1998 que a empresa é parceira dos Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique numa joint venture conhecida como a administração da Cornelder Moçambique.

A mesma é descrita por pessoas internas como os “ovos de ouro” da dinastia Mesquita.

“Toda a carga é estritamente controlada pela administração (Cornelder)…centenas, milhares de contentores. É de onde provém o seu dinheiro. Frete” disse um dos oficiais na Beira, que pediu anonimato por receio de perder o seu o emprego.

De acordo com um relatório do Ministério de Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural (MITADER) que analisa a importação de madeira registada pela China entre os anos de 2005 e 2016 defere significativamente – ronda aos 950 milhões de dólares – dos dados de exportação registados pelas Alfândegas de Moçambique, e os Serviços de Floresta e Fauna Bravia, entidades responsáveis pela exportação de madeira.

 
Portos de exportação: a Beira no centro do país e Nacala no norte são os principais portos de contrabando de madeira. Mapa cortesia das bibliotecas da Universidade de Texas

Beira o ‘Primeiro ponto de saída’

É através do porto da Beira o ‘primeiro ponto de saída” administrado pela Cornelder donde a maior parte da madeira é exportada. De acordo com a sua página online, a empresa mantém um controlo severo sobre as exportações, com um sistema de segurança de câmaras CCTV instaladas em pontos estratégicos.

Fontes que trabalham no porto da Beira referem que este controlo gerou grandes riquezas para a “Dinastia Mesquita” e que para os proprietários do Porto “apenas o dinheiro importa”.

 “ As autoridades do Porto está informado de tudo o que acontece” disse a nossa fonte trabalhadora no porto da Beira.”

Recentemente, Mesquita foi convocado pela Comissão Central de Ética Pública, criada à luz da Lei de Probidade Pública, para fazer face às preocupações de alegado conflito de interesses que envolve uma empresa parcialmente pertencente a si.

Sua aparição estava relacionada com um contrato adjudicado pelo Instituto Nacional de Gestão de Calamidades sem concurso público, para a empresa de Transportes Carlos Mesquita Ltd (TCM). O ministro é um dos proprietários do Grupo Mesquita, principal accionista da TCM, adjudicada com um contrato no valor de 20 milhões de meticais o equivalente a (296 000 dólares) em Fevereiro deste ano.

Em direito a resposta, perguntas enviadas a Mesquita-Cornelda sobre as suas ligações com a empresa e as alegações que a empresa estivesse a fazer vista grossa em relação a exportação ilegal de madeira, declinou-se responder. A Cornelder também não deu resposta a estas mesmas alegações.

Em Outubro do ano passado em mais uma tentativa de exportação ilegal de madeira em 1500 metros cúbicos de Moçambique com destino a China foi apreendida no Porto da Beira. Oficias do MITADER e dos Serviços de Floresta e Fauna Bravia confiscaram camiões transportando madeira a partir de Tete, porque a carga estava acima da recomendada por lei.


Este vídeo feito por um cidadão em Julho de 2017 que ilustra caminhões de madeira que saem das florestas de Moçambique, tornou-se parte de uma petição ao governo e ao Banco Mundial. A campanha também mapeou 37 estaleiros chineses de madeira num percurso de 45 km da estrada EN6 ate ao porto da Beira.

Medidas do Governo

No início do mês de Novembro, do ano passado, o parlamento Moçambicano aprovou uma lei que proíbe a exportação de madeira em torro, a esta lei entrou em vigor a 1 de Janeiro de 2017. A proibição não se aplica a madeira semi processada, como vigas, tábuas e parquê, ou produtos acabados como mobília.

Outras medidas do governo para travar o saque da madeira incluíram a “Operação tronco” que levou os serviços de floresta no centro e norte, a efectuar inspeções a operadores de madeira e culminou com a apreensão de 150. 000 Metros cúbicos de madeira ilegal entre os meses de Janeiro e Março de 2017.

O ministro de Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural Celso Correia disse no mês de Abril, que mais de 120 estaleiros de madeira foram inspeccionados, maior parte deles pertencentes a cidadãos Chineses e operações ilegais foram detectadas em 75 % dos estaleiros inspeccionado.

Correia disse que operações ilegais de extração de madeira, custavam ao país entre 150 a 200 milhões de dólares por ano. Durante o período de medidas contra operações ilegais, foram aplicadas multas no valor acima de 157 milhões de meticais (2.5 milhões de dólares).

Durante a “Operação tronco” a exportação de madeira foi interrompida, contudo, de modo a minimizar as perdas dos operadores madeireiros legais, Correia autorizou a exportação de certas cargas com as devidas licenças e impostos pagos.

As redes dos ilegais, também aproveitaram-se desta permissão para contrabandear contentores cheios de madeira ilícita para a China.

Os registos dos Serviços das Alfândegas da China, indicam que durante o mês de Abril 64.000 metros cúbicos, avaliados em 28.3 milhões de dólares, foram importados de Moçambique. Em Maio, cerca de 32.000 metros cúbicos avaliados em 16,468,080 dólares foram também importados.
 (Este gráfico, de um relatório do Ministério da Terra, do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Rural (MITADER), mostra como as importações de madeira registradas pela China entre 2005 e 2015 diferem muito - cerca de US $ 950 milhões - dos correspondentes dados de exportação documentados por Moçambicanos Alfândega e os Serviços de floresta e Fauna Bravia)
A investigação

As investigações com duração de um ano pelas rotas da madeira, seguindo o fluxo da madeira das florestas de Nampula e Chimoio para os portos de norte e centro, indicam exportação ilegal de madeira.

Para investigar o processo a partir de dentro dos portos, este repórter identificou-se como um homem de negócios ansioso por transportar “em particular de forma ilegal” madeira a partir de Tete, que se encontrava em um campo inexistente no distrito de Dondo, cerca de 50 km da Cidade da Beira.

Operadores do porto, oficiais das Alfândegas e Despachantes, disseram que a situação era “quente” mas não era impossível. Um dos despachantes “Elton” muito conhecido na Beira, ofereceu-se para exportar a madeira, desde que a parte paga a si cobrisse toda a operação. Era condicional que o suborno fosse partilhado com o despachante, oficiais das alfândegas envolvidos.

“Tem de pagar 150 dólares por contentor, isso dá-me uma margem para pagar os meus homens” disse ele. “ Não se preocupe com os agentes, scanners de controlo e oficiais das alfândegas. Trabalhamos todos juntos”.

Expliquei que tínhamos 40 contentores para exportar e queríamos um desconto. “ Claro, por 40 contentores pagas um valor de 25 000 meticais por cada (cerca de 400 dólares),” disse Elton.

Pedí para conhecer os seus associados das alfândegas e os controladores dos  scanners da Kudumba. “ Vais conhece-los assim que fizeres o primeiro pagamento” disse ele “e quando trouxeres os contentores para embarcar".

Este cenário repetiu-se com vários despachantes. Alguns eram mais cautelosos. Um dos agentes “Donald” quando abordado sobre o mesmo assunto, respondeu discretamente: “Nós podemos exportar. Temos nossos próprios meios de fazê-lo".

Um oficial das alfândegas da Beira, acrescentou que a madeira poderia ser carregada aos contentores para embarque fosse qual fosse a sua característica.

Funcionários do porto e vendedores de madeira na Beira, disseram que os Chineses estavam a comprar enormes quantidades de madeira. “Dinheiro fala mais alto. "Tu vendes madeira quente e mesmo que seja ilegal, chega-se a uma negociação com os oficiais das alfândegas,” disse um funcionário do Porto.



Funcionários da (MITADER) com um dos troncos gigantes apreendidos na rota do porto de Nacala: Foto Estacio Valoi

Apreensão em Nacala

De acordo com a direcção provincial da MITADER em Nampula, 28.895 metros cúbicos de madeira foram exportados da província para a China no primeiro trimestre de 2017 – 90% dos quais via o Porto de Nacala.

Foi em Nacala onde o antigo Ministro da agricultura, Tomás Mandlate e uma empresa parcialmente pertencente a si, tentou exportar 1020 contentores de madeira para a China em Dezembro passado. Pelo menos 390 dos contentores foram encontrados no recinto do Terminal de Exportação Especial de Nacala, uma empresa privada em que Mandlate é accionista e presidente da direcção.

A equipa do MITADER, encabeçada pela Directora nacional, Olívia Amosse, apreendeu madeira e multou empresas em 15 milhoes de meticais (cerca de 207 000 dólares). Os contentores remanescentes foram encontrados no recinto de 3 empresas chinesas, Yzou, Zeng Long e Yang Shu.

Amosse disse ao semanário indenpendente Savana que um total de 33.000 metros cúbicos de madeira dura, teria sido exportado ilegalmente para China se sua equipa não tivesse intervido.



Ela disse que a situação encontrada em Nacala “era muito estranha” e mostrou que “estamos a enfrentar o crime organizado”. Era inconcibível que três entidades de aplicação da lei (a Polícia, a Autoridade Tributária, e o Ministério de Ambiente) não tivessem notado o que se estava a passar, disse a Directora.

Outras remessas ilegais de madeira encontradas em Nacala eram disfarçadas. Em Outubro, por exemplo, 16 contentores de maderia dura, declarada como fibra de algodão com destino para a China foram apreendidas por uma força conjuta de oficiais da floresta e alfândegas. A madeira alegadamente pertencia a um sindicato Chinês baseado no Malawi.

Três contentores da madeira Pau- ferro, declarada como castanha de caju com destino para China em Maio foram apreendidos em Nacala. O carregamento pertencia a uma empresa Chinesa de nome ABC, a madeira estava coberta de uma falsa documentação e tinha sido abatida durante o período de defeso.

A Procuradoria Geral prendeu dois oficiais do porto, sob acusações de branqueamento de capitais e contrabando de madeira. Três dos 18 membros do ABC foram presos por branqueamento de capitais enquanto outros encontram-se foragidos.

Um Oficial da Direcção provincial do MITADER em Nampula, disse que a madeira é frequentemente exportada sob categoria de castanha de caju fazendo uso de mais de uma licença.

“Os contentores são registados com duas licenças de exportação, uma como castanha de caju e outra como madeira. Enquanto a primeira licença é usada para ter acesso ao porto moçambicano para exportar, a segunda é usada para o seu destino final, a China, onde o verdadeiro produto dentro dos contentores, madeira, é declarada".

Links relacionados:



•https://www.change.org/p/celso-correia-para-com-o-genocidio-chines-contra-as-nossas-florestas-stop-chinese-forest-rape-genocide-in-mozambique?recruiter=92330304&utm_source=share_petition&utm_medium=copylink&utm_campaign=share_petition

Estacio Valoi é jornalista investigativo moçambicano. Esta investigação foi produzida pelo Oxpeckers Jornalismo de Investigação Ambiental, apoiado pelo Projecto Reportar sobre Corrupção e Crime organizado (OCCRP) e co-financiado pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF) em Moçambique.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Caça furtiva o desmoronar dos castelos !






Texto e fotos: Estacio Valoi
Dados disponíveis decorrentes da caça furtiva, sobretudo para obtenção de troféus de rinocerontes e elefantes, são de deixar qualquer mente sã em estado total de choque. Esta indústria sindicalizada de crimes “rende’ entre 10 a 17 milhões de dólares por ano segundo números avançados durante a 17 Cop- Convenção Internacional sobre espécies em via de extinção (CITIES) realizada em Johannesburg em 2016.

Segundo o Serviço Nacional Sul Africano de Parques (SNAP), de 2007 a Setembro de 2016 a Africa do Sul perdeu cerca de 6000 rinocerontes e elefantes devido escassez e a crescente demanda de cornos e pontas de marfim para alimentar a maioria dos mercados chineses e vietnamitas. No meio deste negócio sujo, um padre também amealha os seus quinhões!

Tráfico transnacional
Os Estados Unidos da América, também fazem parte do mercado dos ‘trofeus’ originários das espécies ao tiro chacinadas no Kruger Nacional Parque, onde na mesma moeda, furtivos são abatidos a tiro pelos fiscais do Kruger, que primeiro disparam e depois perguntam. Também fazem parte do sindicato do crime jovens moçambicanos caçadores furtivos que, sem se despedirem de seus familiares, são levados ‘pela ganância, dinheiro fácil,’ muitas das vezes numa viagem única, sem volta! Ou voltam mortos. A Fundação Joaquim Chissano fala em cerca de 500 nacionais.

Do lado moçambicano, exactamente no Parque Nacional transfronteiriço do Limpopo, dos milhares de rinocerontes outrora existentes, em 2015 o numero desta espécie quase “extinta” era menos que duas dezenas segundo, Celso Correia Ministro da Terra, Ambiente e desenvolvimento Rural.
Naquela manha deixamos Sandton, a Convenção e as centenas de dignatários, organizações que se fizeram ao encontro para trás e rumamos ao distrito de Massingir num percurso de 545 quilómetros de Johannesburg, via Pretoria, Npolokwana, descendo pelo asfalto e a terra batida do Kruger Nacional Parque e, Massingir adentro.

O Kruger ia destapando suas paisagens a mistura do castanho do capim, terra, planícies exibindo as várias espécies, Hipopótamo, Búfalos, Leões, elefantes e outros. Menos o rinoceronte que com as actividades dos furtivos, mesmo ‘protegido’ a ferro e fogo, achou melhor permanecer escondido. Afinal todo cuidado é pouco! São espécies condenadas a sua inexistência por redes organizadas da caça furtiva apadrinhadas por líderes Moçambicanos, sul-africanos coniventes nesta indústria do crime sindicalizado que aufere uma quantia de 65.000 dólares americanos por quilo.

 Estamos na linha de fronteira, zona limítrofe entre Moçambique e Africa são separados pelas suas linhas de fronteira numa extensão de cerca de 210 quilómetros e, o nosso ponto de entrada é o distrito de Massingir na Província de Gaza onde levados pela imponente barragem construída sob o rio dos elefantes nos seus 2000 metros de extensão, enquanto o sol ia mais pelo poente, a mesma punha nos em solos cinzentos, avermelhados da vila. Dava a sensação de uma viagem sem fim, afinal de contas a maratona seria longa, carregada de muita adrenalina, certeza e incertezas.



 Nympine’s mansion along the main road to Chokwe district remains half-built. Photos: Estacio Valoi

 Desde do encontro com Justice Nyimpine e seus correligionários, nomeadamente Simon Ernesto Valoi “Navarra”, Chuire, chefes, mandantes de jovens que levados pela “ganancia, dinheiro fácil,” atraídos pelas mansões, carros “fácil riqueza, rápida, ” ostentada pelos famosos chefes sindicalistas da caça furtiva, coniventes com o sistema de quem “solicitam armas de fogo para a caca”, fazem se ao interior do Kruger Parque na caça do rinoceronte. “ Até o governo conhece todos os chefes envolvidos no negócio.”

La estava em Massingir, mas desta vez como tradutor, com claro objectivo de sentar-me com todos os furtivos da zona, dos mais aos menos famosos, mas nem tudo saiu como previsto. Nem todos! Apenas Chiure, o primeiro e mais antigo caçador furtivo de todos, seguido do Nyimpine, e Navarra o mais novo dos mais famosos do sindicato, que na sua Land Cruiser branca, ia saindo da sua casa num vai e vem.

"Navara é uma pessoa muito perigosa. Se você investigá-lo a população irá denunciá-lo à polícia como o que aconteceu com os jornalistas holandeses que estavam aqui à procura de Navara foram quase mortos pela população.” De acordo com a edição "Spiegel Online", o repórter alemão Bartholomaus Grill eo fotógrafo sueco Toby Selander foram presos pela polícia moçambicana no distrito de Massingir, no sul do país. Assim, sem nenhuma proteção, Grill e Selander foram e bateram na porta da frente de Navara em 2016. http://allafrica.com/stories/201503150383.html

Segundo autoridades sul-africanas e Moçambicanas, de 2011 a 2013, o extermínio de rinocerontes devido a caca furtiva, atingiu níveis alarmantes com uma ligeira descida em 2014,‘devido a redução do movimento de caçadores furtivos dentro do parque transfronteiriço do Limpopo, Kruger Parque, devido ao reforço das operações, intensificação das actividades dos ficais na detenção e baleamento de furtivos facto corroborado pelo administrador cessante do Parque transfronteiriço de Limpopo, António Abacar. 

“Lei é fraca, frágil”
Contudo, Abacar reconhece que muito tem que ser feito sob ponto de vista do sistema judicial e de justiça, que ainda beneficia os sindicatos do crime, um Governo com uma legislação que apenas puni os furtivos, deixando os mandantes a solta, contrastando com a sul africana, num propósito que se julga comum, combater a caca furtiva, visto pelas lacunas, buracos. “ Há diferença de legislação entre os dois países, a nossa lei é fraca, frágil.”
Enquanto isso, comunidades- famílias, número de crianças órfãs, mulheres sem maridos, meios de sustento, vai aumentando, fiscais mortos, milhares de rinocerontes abatidos, tecido social, cultural, económico desestruturado, aumento do nível de pobreza. “Em 2013, foram mortos dois fiscais do Limpopo envolvidos na caça furtiva, baleados pelos seus consignatários do Kruger, deixando três viúvas e dose filhos órfãos.” Diz Abacar 


As incursões dos jovens rumo a Kruger, não surpreendem Massingir. São vários os casos contados a nossa reportagem por famílias, parentes de algumas vítimas numa vila em que as condições de vida de 2013 a esta fase “ mudaram para uma minoria,” os chefes do contrabando. Era necessário ouvir mais testemunhas. Deslocamo-nos a casa de Jaime Cumbane, líder comunitário do Bairro Eduardo Mondlane recentemente criado a luz do processo de reassentamento das pessoas retiradas de dentro do parque do Limpopo.

Sentados, ao mesmo tempo que íamos conversando com Cumbane, os olhos dele pareciam camaras ocultas monitorando tudo em volta do seu quintal, as actividades dos seus filhos, já que a partida ao campo da morte de Kruger nunca é anunciada. São jovens que na procura do “ dinheiro rápido, mansões” não tem hora de saída, do adeus e muito menos de volta na expectativa de trazer cornos de rinoceronte ou dentro de um caixão no jogo de escondida com os fiscais. “ Dentro do Kruger, furtivo armado é furtivo morto.”



Loteria Dinheiro fácil ou morte certa
De 2011 ate hoje, de pouco ou quase nada a caca furtiva beneficiou Massingir mesmo com ganho imediato, do tal dinheiro fácil, “ voltar com seis milhões” de uma pratica que constituía maior negocio, dinheiro gasto na bebedeira, compra de viaturas de luxo, investiam em pouco! “Antes era um negócio rentável, agora estão a sofrer, deixaram viaturas, motorizadas parqueadas, casas inacabadas devido a segurança apertada e o número de mortes elevadas. Agora tem pouco por fazer, é uma miséria.”

É imensurável a angústia, dor, insatisfação que transborda no rosto de Cumbane, seus olhos carregados de água, sua voz por vezes, cai em rouca e retorna a normalidade. E, retracta a ganancia, cobiça em ter um carro, filhos levados a morte mandatados pelos chefes sindicalistas da caça furtiva. “Há aqueles que construíram casas bonitas, alguns andam de carros que nem imaginávamos. Nas aldeias Macoti, Matico, Xicaia, Mazove.”

 “O governo conhece todos os furtivos. Maldita hora que a caça furtiva foi descoberta. O patrão manda e quando há morte, custeia as despesas das exéquias tentando demostrar que são pessoas de boa conduta mas nós sabemos que são mandantes. Podíamos diminuir esta bandidagem. Mas aqui na nossa terra não se consegue. Cumbane Enfatiza  

Há membros do governo que apoiam a caca furtiva. Eram 4h00 de madruga, isto em 2011 quando duas pessoas desataram aos tiros de pistola em perseguição de alguns jovens de Nkanhane. A população bloqueou a estrada e prendeu as tais pessoas que apos terem chamado o comandante da polícia de Massingir, descobriu -se que as duas pessoas eram agentes da polícia de Maputo, que alugaram arma para os jovens que acabaram perdendo no kruger quando estavam a ser perseguidos pelos fiscais do parque. Mais tarde, alguns desses jovens foram mortos no Kruger. Diz Isac Aleone Fubai, líder comunitário da comunidade de Cubo.

Aparente redução
Aparentemente a caça furtiva reduziu em 2016 devido ao índice elevado de mortes, caçadores furtivos presos pelos ficais no Kruger que tiveram que reforçar as suas actividades no Limpopo e Kruger, enquanto isto alguns dos mais proeminentes caçadores furtivos, iam deixando a poeira baixar, outros, mesmo assim arriscavam suas vidas entrando nos parques. Há muitos segredos em torno da caca furtiva, com alguns membros do governo envolvidos, armas usadas provenientes de fora assim como as pessoas, quando presas dizem que ser de Massingir, quando são do distrito de Chokwe.
 “ Aqui no nosso Pais ninguém os prende. Essa caca vem do topo, nós aqui não somos nada, eles é que trazem as coisas para aqui e mandam os produtos pelos navios. É difícil encontrar solução para esta luta.” Diz um dos líderes locais.



Navara is the most notorious of the poaching leaders. This is an unsourced photo of him from 2015

 Uma outra fonte confidenciou que só com o dinheiro manuseado em Massingir, aquele distrito estaria num nível de desenvolvimento elevado comparativamente com o actual estagio, e os furtivos não estariam as ser afectados pela presente crise. Era muito dinheiro e de todo talvez tenham gasto 10% do que tinham na compra de carros, construções de casa. “ Usaram mal o dinheiro. Vi pessoas com congelador cheio de dinheiro. Estas a ver um congelador que não funciona, cheio de dinheiro, Rands, Dólares!”



Outside Navara’s home. He was unavailable though we were told by locals that he was seen coming in and out of his precinct in a white Land Cruiser

 Corrupção, Juízes
“A caça furtiva tem beneficiado pouca gente. Se um Juiz chega a um distrito a vir de ‘Chapa’ e, passado um, dois anos começa a mudar de carros, altas marcas, Audi, mostra que pode haver cumplicidade. De 2009, 20010 em diante, muitos casos de furtivos davam entrada ao tribunal de Massingir, eram absolvidos. Eu nunca vi alguém ir a cadeia.” Na altura Agostinho Mussangai estava afecto ao distrito de Massingir.

O tempo urgia, e, era preciso encontrar os chefes dos furtivos, desde Justine Nyimpine, Navarra, Chiure e seus sequazes. Claro que era um grande risco ir a procura do Navarra pela sua “popularidade na comunidade e no governo”, cadastrado não só na caça furtiva mas também no roubo de viaturas a mão armada, sua primeira profissão. “Navarra é uma pessoa perigosa. Se fores a procura dele, as pessoas vão telefonar para polícia, que vai perseguir- te como aconteceu com aqueles holandeses que estiveram, que iam sendo mortos pela população.” Mas era preciso encontrar os chefões do sindicato.

Pacto de Morte entre sindicalistas na caca furtiva
Entre os mandantes e seus trabalhadores faz se um pacto como no caso de se saírem bem-sucedidos serão pagos X e, no caso de morte, os mesmos chefes responsabilizam-se pelas exéquias. Pagam as cerimónias fúnebres, alegando que o filho daquela família foi la pedir lhes emprego. As famílias ficam com medo do chefe matar-lhes.
“Aqui, a nível do distrito, Chiure  o  mais antigo e mais velho furtivo, conhece Navarra mas não são amigos. Já enterrou mais de sete jovens, tem la um prédio, mercearia, uma Land Cruiser branca que comprou de outro furtivo. Também tens outros furtivos em Nyangani, Nkanhine como Rongane que viu seu irmao mais novo ser morto no Kruger parque em 2014”.



 The poacher-preacher: This 2015 photo of Justice Nyimpine, leaked to Oxpeckers, showed him in a SANParks helicopter

O Padre Furtivo na primeira pessoa ou “The poacher- preacher”
Tarde de Sábado, telefonemas, marcações e desmarcações, 10 minutos de condução, entramos na mansão de Justin Nyimpine sita na estrada principal em direcção a Chockwe. O furtivo padre já estava a nossa espera para uma conversa que levou mais de duas horas, uma autêntica salada, Ingles, Portugues, Changana, não era fácil ter toda a estória. 

Para Nyimpine, aquela não era sua primeira vez em cenários do género, sabia ao que íamos e logo a prior prometeu contar tudo e mais alguma coisa, algo que deixou-nos a vontade ate que, tirou-nos o tapete dos pés, cobrando pela entrevista! “ São vocês que querem falar comigo. Posso sentar me aqui convosco, conto vos tudo, mas são 15 mil Rands para gravar, fotografar, filmar. Mas se não pagarem, também posso contar-vos tudo, mas sem gravações, fotos.”

Foram aproximadamente duas horas e meia para tentar convencer Nyimpine, e explicamos que não pagamos a ninguém pelas entrevistas. E, como tradutor, até já doía-me a cabeça de tanto andar entre os três idiomas.
“Aqueles que me puseram no Youtube pagaram muito mais. "Duena" explica la esses aqui, eu sei que são jornalistas! ‘E necessário ficar frio. Aqui, estamos na minha obra, eu é que dirijo. Esta tudo controlado. Se conseguir vai sair do portão mesmo se não recolher nada. Queres saber se as pessoas estão a caçar! Sim, estão a caçar.” Dizia Nyimpine
Sou eu Justice Nyimpine, não sou um simples cidadão, sou pesos pesados, não sou uma pessoa fácil de encontrar. O que ‘e de Massingir esta aqui guardado comigo, não estou aqui para perder tempo! Retorquiu
De facto, Nyimpine que estudou até a 4 classe, para alem das suas quatro mulheres, também tem os seus vinte e um filhos por cuidar incluído a criação de gado bovino, o seu talho e a plantação de banana. Quer ver todos os seus filhos com uma formação superior. “ Quero ver todos os meus filhos frequentar a universidade. Eu sou pai!

Dádiva de deus
 O Padre furtivo atribui se um estatuto de humanitarista, acredita ter sido abençoado, uma dádiva e se esquece dos muitos jovens as centenas por ele e outros enviados para a caca do rinoceronte ou morte a tiro pelos fiscais dentro do Kruger Parque “Eu tive esta dádiva de deus para ajudar os outros, eu pessoalmente não quero ajuda de ninguém. Sou padre na minha igreja.” Ate mesmo na distribuição de armas e envio dos jovens a morte.
Enquanto exibe uns vídeos no seu telefone, de outras missas, convida – nos a sua igreja, assistir uma missa ministradas por ele mas sem se esquecer da sua principal actividade. “ Eu sou caçador furtivo, vendo e mando. Não tenho falta de emprego, sou patrão, arisco a minha vida para fazer o trabalho, ter dinheiro. ” Diz Nyimpine

Durante a conversa por vezes os ânimos se exaltavam, a tensão era amainada por sorrisos largos, frios e gargalhadas a mistura, afinal de contas estávamos com o Padre Furtivo, chefe dos furtivos, exposto nos órgãos de informação, redes sociais.
 Justificava que dinheiro que ele exigia pela entrevista seria para pagar advogados, e que ao contar os contornos da caça furtiva estava a por sua vida em perigo. “ Sou eu quem procura, caço, ate hoje sou patrão, conheço todo o processo, como é feito, quem esta envolvido, mercado de venda, quem compra, tudo. Isto é uma rede. Este é um sindicato muito poderoso, eles já sabem que nós estamos aqui dar informação a vocês.”

Aparentemente o negócio da Caca Furtiva também beneficia algumas reservas em Massingir  
O parque do Limpopo foi criado em 2001 e na altura não se ouvia falar da caça furtiva. No parque nós tínhamos Bill, um bóer que ainda la esta, contra todas as regras, fazia a fiscalização sozinho, tinha uma arma e fazia o abate dos “ditos” animais problemáticos, de elefantes, rinocerontes. Ele, sua Land Cruiser, e o helicóptero a que tinha direito, nunca eram revistados. Relata a fonte.

Os mentores da caça furtiva não eram da comunidade de Massingir que já tinha em mente a questão da conservação, ao mesmo tempo tinha benefícios em 20% das receitas do turismo, isto de 2007 a 2009 fase do pico do turismo ‘ recebíamos uns 20 mil turistas. N mesma altura a Twin City-Karingana Wa Karingana Reserve veio com seus “investimentos” e “ todo o mundo começa a saber que ir ao mato significa voltar com dinheiro”.



The home of the original and the oldest poaching leader, known only as Chiure

 De acordo com a empresa Twin City , o seu principal objectivo é investir na conservação da vida selvagem, prevenir e combater a caça furtiva. "A Twin City uniu forças com as unidades  sul africanas que vao trabalhar na caca furtiva incluindo o governo moçambicano, de Massingir que também fornecerá unidades no combate contra a caca  furtiva.”
A empresa alega não ter qualquer relação com líderes políticos moçambicanos "Twin City não tem qualquer parceria ou associação com qualquer líder político moçambicano".

Mas evidências ilustram que Twin City  tem a proteção de líderes da nomenclatura politica mocambicana  (FRELIMO) e seus parceiros de negócios sul-africanos.
AS Reservas privadas em Massingir, o Karingani (ocupa Gaza e Maputo) pertencente ao grupo Twin City, Safari Mondzo, Mooi Plass. Tambem existe a Massitonto, Sabie Game Park, e Lodges Covane Lodge, Balule lodge, este último também associado com Numaios e Samora Machel Junior, Renato Numaio, filho do ex-governador.

Segundo o BR+84+III SÉRIE — Número 84, a Sociedade denominada Twin City Ecoturismo, Limitada Certifico, com sede em Maputo, registada na Conservatória do Registo Comercial sob o número 100123428 tem como sócios a Twin City Development (PTY) LTD, titular de 50% das quotas, representada pelo senhor Reinecke Janse van Rensburg, e Twinsin Investment Holdings Limited, titular de 50% das quotas, Moçambicanos representado pelo senhor Muhammad Khalid Pey rye. Administradores da Twin City Luke Bailes, Rob Nathan e Mark Witney; e b) Pela TCD serão JohanVisagie e Reinecke Janse van Rensburg. Do lado Moçambicano temos como sócios o ex-Governador de Gaza, Eugénio Numaio com 10 mil hectares, seu filho Rangel Numaio, Samora Machel Júnior, Renato Mucavel.

Apesar de todos os factos, incluindo o Boletim da Republica que ilustras as ligações da empresa Twin City com Lideres políticos Mocambicanos, esta tenta ludibriar e contradiz se.  "A Twin City é uma empresa constituída em Moçambique com o objectivo principal de investir na conservação da vida selvagem.A Twin City não tem qualquer parceria ou associação com líderes políticos moçambicanos. "
“ Os mesmos Bóeres é que ajudavam os furtivos a comprar Land Cruisers na Africa do Sul como o senhor Ryane da estância turística Mangonzo, vi o carro que ele ajudou o furtivo a comprar, com dinheiro vivo. Como é que o Bóer achava que onde é que a comunidade arranjou dinheiro para comprar uma Land Cruiser. Há muita cumplicidade neste trabalho. O mesmo senhor Ryane pode confirmar. Todo o mundo sabe que são esses furtivos. Porque é que não estão presos!? Questiona a fonte

Janeiro deste ano, celebrava-se em Massingir, mais três rinocerontes tinham sido mortos pelos furtivos.” Em finais de Dezembro foram caçados rinocerontes. Ontem dia 10 de Janeiro desde ano, isto por causa do dinheiro, isto era pura adrenalina, parecia a festa de fim de ano. A Twin City  nao esta ali para proteger nada mas tambem cacar .    Enfatizou uma das fontes cujo nome nao revelamos