segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Guerra da água e dos alimentos



Texto e fotos: Estacios Valoi
21/11/11
John Vidal, editor ambientalista do jornal Guardian em Londres na Inglaterra numa breve conversa com a nossa reportagem sobre questões climáticas, durante a conferência realizada pelo Fórum para jornalistas de investigação africanos em parceria com Universidade Witwatersrand em Joanesburgo na África do Sul.
John Vidal, vencedor de prémios na área de investigacao climática, com um dos seus artigos trouxe a ribalta na Inglaterra um dos casos mais longos casos levados a julgamento naquele Pais envolvendo a McDonald e não s’o.
Sendo McLibel: A cultura do Hambúrguer (Burger Culture),"Rio vendido” (Sold down the River) e recentemente com “Como ‘e que os alimentos e a água conduzem os destinos do século 21, a expropriação da terra”, deu espaço para perceber mais sobre o fenómeno das mudanças climáticas vs alimentação, agua, energia, a questão da terra, em geral o meio ambiente.
EV -Qual ‘e a percepção que o acidente tem sobre a África?
JV -Poucas pessoas fora de África percebem o quanto a África é vasta. Os mapas que adquirimos na Grã-bretanha são basicamente uma falsidade, ilustram um continente ínfimo aludindo a grandeza da América, da Grã-bretanha, os mapas estão carregados de um estranho proteccionismo, produzidos na época colonial. E, na projecção real constatamos que a África é um vasto continente , suficiente para alimentar toda a China, Índia, América do Norte.
Poucas pessoas percebem o quão vasto é o continente, sua voracidade, diversidade. Esta é de facto a chave para entender as mudanças climáticas, como podem ver não e o mesmo em todas em todas partes. A África batalha com o mundo, é o centro e o que aqui acontece vai absolutamente afectar o mundo nos próximos 100 anos. Neste momento falo no sentido físico e não moral da questão.
EV -Sendo um jornalista de investigação na área ambiental, com vários prémios ganhos qual é a sua percepção sobre a questão da agua no continente?
JV -O Ocidente tem sempre os olhos postos na África como berço de ouro, onde adquire recursos de forma menos dispendiosa, marginal e isso vai mudar. A Agua é o ouro mundial e, quem sobre ela tiver o controlo também poderá controlar os outros países isto porque se quisermos desenvolver temos que ter agua. As mudanças climáticas, a falta do acesso a água para todos. É um grande perigo.
EV -Numa das suas apresentações durante a conferência fez alusão a certas mudanças. Que mudanças?
JV -Muitos países enviam as suas grandes empresas a África, as quais compram ou adquirem vastas extensões de terra, na Etiópia, Uganda, Moçambique e em diante. Alguns querem as terras para a produção de bio-combustiveis, fruta, árvores e vegetais mas, para o seu próprio benefício. A isto denominamos expropriação da terra “ Land Grab”, as pessoas tiram as terras dos nativos, dos pequenos agricultores e pensamos que isto constitui um perigo.
EV - Onde reside o tal perigo a que se refere?
JV- As pessoas ou os nativos perdem suas terras e, não estarão em condições de produzir alimentos para seu próprio consumo. A questão é que essas grandes companhias estrangeiras vem sendo atribuídas recursos pertencentes a esses Países e certo tipo de culturas são industriais que cobrem tudo mas não providenciam emprego para as pessoas naquela área. A questão é que as terras africanas acabam nas mãos de pessoas estrangeiras.
EV -Parece me que mais do que produzir importamos. Não?
JV - Não há necessidade de importar. Há vinte, trinta anos atrás a África produzia alimentos a seu bel-prazer e hoje constatamos essas mudanças. Anualmente a África importa cerca de 50 milhões de dólares em alimentos, e o constante aumento da população! A Maior parte dos alimentos que são produzidos no continente é exportada para Países como a Arábia Saudita e outros mas não para a África. Devia haver um movimento para África.
“O governo de Moçambique está cedendo o uso de 6 milhões de hectares - o que corresponde a dois terços de Portugal - para agricultores brasileiros plantarem soja, algodão e milho no norte do país…”Neste caso verdade ou não, facto é que é uma constante em Moçambique, lideres fantoches, sem consulta prévia a um economista, baseado na lei distribuem terras aos seus comparsas.
EV -A exportação de produtos da África para a Europa e/ou vice-versa, no fim do dia ter que importar “o mesmo” produto de volta ao continente e com as mãos abertas a espera do donativo. Não será isto um paradoxo?
JV -Absolutamente. ‘ É tanto e quanto extraordinário. Em África são muitos os Países que enfrentam problemas da segurança alimentar, mas continuam a disponibilizar vastas áreas a essas empresas estrangeiras, as multinacionais que produzem alimentos para o seu próprio benefício em detrimento do continente. É uma loucura, é de loucos.
EV- Será que esta questão circunscreve apenas na inexistência de politicas agrárias?
JV - Não sei quanto a Moçambique mas no contexto dos outros Países cujo departamentos agrícolas são frágeis, inoperacionais, sem poder, com um presidente vitalício e pessoas governamentais que tomam decisões sobre o que acontece ou não com as terras sim. Tambem notei que pouco investimento é direccionado para a agricultura Africana.
EV -Como mudar o cenário?
JV -Penso que é extremamente importante que cada governo que se envolve em acordos com empresa estrangeira ou Pais para uso e aproveitamento da terra em África, devia pautar por um processo transparente, com o conhecimento da sociedade sobre os montantes envolvidos, tempo de exploração, o numero de empregos, o que advêm desse processo e não contrariamente ao que é habitual, o secretismo. Queremos saber o que vem sendo feito em nosso nome, do povo.
EV -Falta de transparência, acordos secretos, alimentos a serem exportados. Isto é no contexto de empresas locais ou estrangeiras?
JV -Temos empresas da Arábia Saudita, Índia a operar em grande escala no continente africano mas que, nos contractos rubricados não existe nenhuma clausula que diz que estas empresas devem produzir alimentos para África.
O que sabemos é que a maioria dessa produção tem sido exportada, enviada de volta para a Arábia Saudita, Índia e, diria que isto é roubar a agua africana para o crescimento desses produtos alimentares. Os produtos precisam de água, do sol e se estamos a exportar esses alimentos, estamos a exportar agua, sol, o que presentemente esta a acontecer.
EV -Mito ou não quando se diz que a China esta a varrer o continente africano e qual é o tempo ponto de vista?
JV- A China é um amigo, um potencial. Entrou, esta a investir com muita força nos recursos de que precisa. Criou laços fortes de cooperação com muitos países africanos os quais por si só no fim do dia pagam a China e não o oposto, claro que A china construiu estradas, pontes, hospitais, fez muito para as comunidades, não posso negar este facto.
O perigo reside quando começam a beneficiar se dos recursos no continente mas com exclusão da África. ‘Não deixa nada’. Começa como um amigo mas potencialmente torna-se num inimigo. Em África a China tem muito poder.
“Enquanto os US entram pela forca das armas os outros põem o dinheiro a vista. Vejam se não ficamos até sem a roupa no corpo.

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