quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Maga Exilado na Ilha de Moçambique



Maga Exilado na Ilha de Moçambique
Texto e fotos: Estacios Valoi
25/11/10
Lembro me do Paulo Magalhães (Maga) lá pelas bandas da Polana de Cimento, ali do outro lado do hospital central na rua da Mokumbura bem engomadinho, camisa de mangas compridas e claro de calcas bem vincadas, cabelo a escovinha. Se era a ferro de carvão ou não, essa foge me da memoria. Na altura ate perguntava -o se estava prestes a enforcar -se! É na Ilha de Moçambique sítio chamada Rubys que se da o reencontro. Mas antes de saber de quem se tratava fui ao museu local ver uma exposição de artes plásticas que estava patente e, muito longe de imaginar que Maga e Paulo são as muitas pessoas numa.
Também não tenho bola de cristal. Depois de ter solicitado o contacto do artistas aos gerentes do ‘ Backpacker’, isto é, o Vasco e Carolina que enquanto vasculhavam o número no celular, por fim disseram, tarde ou cedo o Maga aparece por aqui, o que fez com que me esquecesse daquelas latas que muitas das vezes as nossas companhias de telefonia móvel põem a cantar a mesmo ritmo “ neste momento não é possível estabelecer a ligação que deseja, tente mais tarde”! Lá se despiu a lua do sol e eis que horas mais tarde entra Maga, o pintor desconhecido, conhecido trajado de umas jeans azuis, camiseta branca, sapatilhas, uns quilos mais para o outro lado, pouco avantajado e umas ‘dreadlock’ de cinco anos equiparados ao seu tempo como habitante permanente da primeira capital moçambicana.
Sobre tela o óleo desliza destapando caras, corpos a colorido e por vezes a preto e branco, suaves, reais abstractos, a identidade tradicional contemporânea desembocando no farol da Ilha de Goa.
EV – Lembro me do Paulo Magalhães (Maga) de fato e gravata pelas bandas da Polana em Maputo. A quanto tempo andas exilado na Ilha e esta “mudança”?
M -A cinco anos. Esta mudança, é a vida que foi caminhando para um destino que já estava traçado depois de varias vezes ter passado por aqui onde antes fiquei nove meses e desisti disto. Estava destinado a vir parar aqui e, cá estou.
EV - Quem é o Maga ou Paulo de ontem?
M -Dentro de mim, primeiro não me considero artista plástico mas gosto da arte, desenho, escrevo mas ainda não me apareceu qualquer coisa. Quem sabe um dia. Mas é algo que já trago dentro de mim faço tempo e a Ilha de Moçambique é um sítio ideal para isso.
EV - Porquê a Ilha de Moçambique, cansado da aldeia Maputo?
M -Acho que já não me enquadro lá, não porque cansou do sítio. ‘É onde tenho família, filho. Yaa, mas já não consigo estar a viver naquele sítio, isto é muito mais de mim porque a cidade de Maputo.. Então estas a ver, é por ai.
EV -Já fica meio perdido. Quando é que o Maga aparece e diz vou fazer uma exposição aqui na Ilha?
M -Fiz a primeira. Olha, tenho um espaço que a princípio ainda vai ser um bar onde faço alguns convívios com amigos e foi onde fiz a primeira exposição a cores também em tela e óleo. É algo que sempre esteve na minha cabeça e dizia a mim que o dia em que estiver na ilha também faço uma. Foi se a primeira e agora apareceu esta programada que se enquadra no dia da cidade e convidamos dois artistas locais. ‘É interessante porque praticamente o meu trabalho em termos de traço, arte pintura não tem nada ver com o local e por acaso tinham esculturas do Fefe que eram os barcos e é um bom escultor e pronto. Yaa, surgiu a ideia e fizemos a exposição
EV - Cinco anos na Ilha. Exílio ou Salvação?
M -Nem salvação nem exílio é vida mas só deus sabe ate onde a gente vai. Hoje estamos aqui e por acaso é aqui onde quero estar. Amanha não sei.
EV – Pensas que te encontraste com o Maga, Paulo e outros dentro de ti e que antes estavas a representar um certo personagem?
M -As vezes a gente tem uma coisa que é uma obrigação, e o trabalho as vezes nos obriga a estar em certas condições em não és realmente tu.
EV- É a tal liberdade de que tanto se fala, o direito a escolha?
M -Desde que seja bem feito. Penso que as pessoas tem que ser elas mesmas, agora digo que sou eu mesmo, não há aquele, não há o espelho ao lado, estou a ser eu e sou eu memo.
EV -Este é o encontro do Paulo e o Maga?
M -Ate sinceramente. Maga vem do Magalhães, eu sou Paulo César Correia Pinto de Magalhães e essa família também merece estar numa tela. Estas a ver, ela é muito forte. (risos).
A esteira do alanca cultural e/ou dos fazedores das artes ilhados, pareceram me praticamente ‘ inexistentes’ numa ilha onde levam se décadas para se realizar uma exposição seja disto ou aquilo. Contudo Maga considera deficiente mas que vai se fazendo.
M-Penso que na ilha existem mais artistas e não só estes cinco ou três.
EV - Mas já os pôde ver?
M -Ver não porque esta coisa de criar exposições vou te dizer. Esta é a segunda exposição na ilha de Moçambique faz décadas, não digo que não tenham acontecido mas isto que foi feito e organizado no museu. Há feiras, artistas e, a quem esteja habituado a apresentar em feiras. Mas em Nampula o que tu vês em feiras! No museu em Nampula tens uma exposição mas vais ver que é permanentes e tens pouca gente a fazer pintura e a expor o seu trabalho, mostrar. Organizar uma exposição, muito menos em Nampula e pior aqui.
EV- Base de inspiração e a mensagem?
M- Sabes, eu pinta muito o ‘ NÓS’. Se reparares pinto muito o homem, a mulher, rostos, o que nós somos e para mim, nos expressamos do nosso corpo, cara, quero dizer a nossa expressão seria é essa, estas a ver. Aquilo que estas a olhar é aquilo que é. As minhas mensagens são várias, sou muita paz e amor, harmonia. Estas a ver, sou mesmo muita paz e amor… yaa, expresso muita coisa.
EV - Como é que partilha o teu conhecimento com a turma artística cá da Ilha, isto considerando que a maior parte quase que nunca sai da ilha, isto para além de que os outros quadros que vi expostos trazem a mesquita, fortaleza num traço tradicional de desenho básico ilhado?
M - Vou te dizer. É bom sair da ilha yaa, mas sair e ir pensar. Exemplo os putos estão agora a estudar a 12 classe e é lógico que aqui não temos Universidade e nem condições e, os gajos tem que sair todos para Nampula, esta a ver. Mas era bom que os gajos se formassem em áreas para depois voltarem para aqui e fazer alguma coisa disto porque amanha não estaremos aqui, vai estar o meu filho. Pronto o meu filho é de Maputo mas que o gajo amanha fizesse um curso e viesse para aqui fazer alguma coisa. Quanto aos locais, gostaria que eles também fizessem isso mas é normal que eles também tenham necessidade de ir conhecer outras coisas, cidades.
Pintei a ilha mas num traço totalmente diferente. Vais ver a ilha em preto e branco, tens uma tela em que tens uma mulher mas é a mulher daqui Macua, a do Farol, estas a perceber. O Farol é uma ilha do outro lado que nós temos, chama se o Farol da Ilha de Goa. Então a mulher que esta na praia, na ilha de Goa é mulher Macua.
Mas para um jovem que esta aqui esta interpretação é difícil. Alguns querem aprender a pintar mas digo sinceramente o problema não é aprender a pintar. Aprender a pintar pintas qualquer coisa o problema é te expressares de maneira que as pessoas entendam aquilo que estas a pintar. Aqui temos vários artistas que fazem o seu trabalho monótono diário e que tem falta de criatividade. O incentivo esta ai, estou a dar, esta lá. A explicação! Alguns sabem ler, mas o conceito daquilo que aquela arte, a pintura representa é muito difícil para um jovem daqui da Ilha porque eles ainda têm muito que aprender. Estão a aprender e estão a ter resultados.
Esta nova geração não acredito que apanhe, mas as próximas consoante o trabalho que estamos a fazer, eu e certas pessoas acredito que sim.
EV – Maga ilhado que analise faz da tua estadia nestes cinco anos aqui na ilha?
M- Fixe.Pora, nem imaginas. Não tem comparação há muita coisa a acontecer e a aparecer para os dois lados. Não se pode dizer só para o bem da comunidade mas como se diz, com o desenvolvimento também aparece o ladrão, a falta de água só aparece depois do ladrão que corta tudo.

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