sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Florestas em perigo de desaparecimento

Texto e fotos: Estacio Valoi 18/07/14

(www.soldoindico.co.mz)A província da Zambézia apresenta o maior índice no que tange às queimadas descontroladas em Moçambique. Em apenas 12 dias registaram-se naquela província cerca de 1500 focos de queimadas, sendo 589 no distrito de Morrumbala. Lavouras, produção do carvão vegetal e caça de animais, são algumas das principais causas deste flagelo, um autêntico desastre ambiental que põe em causa o ecossistema.
Fogo posto em Mareja-Cabo Delgado
 As queimadas descontroladas também destroem casas, celeiros, postos de energia, escolas e obrigam por vezes à fuga das populações. Províncias mais populosas no centro do problema As províncias de Zambézia, Nampula, Niassa são as mais afectadas por estas práticas, as mesmas que outrora tinham o maior índice de concentração de vastas áreas verdes. O director nacional de Florestas e Fauna Bravia, Simão Joaquim, avançou que as províncias de Nampula, Zambézia e Niassa estão no topo da lista, tendo sido as mais afectadas pelas queimadas durante os meses de Junho a Dezembro.


Por seu lado, Natacha Ribeiro, do Departamento de Engenharia Florestal-Queimadas da Universidade Eduardo Mondlane, afirma que a questão das queimadas descontroladas é um assunto complicado e de carácter nacional. «Há cinco anos que há cada vez mais queimadas como ferramenta de gestão dos recursos naturais.
A população vai fazendo queimadas, e pensa que está a resolver um problema, mas está a criar outro ou uma série de outros problemas», observou. E, ainda no mesmo diapasão, Natacha apela para que políticas restritas e o cumprimento da lei se façam sentir contra os prevaricadores. «As mudanças climáticas têm o seu efeito sobre a floresta. Espécies são mortas e depois não conseguem degenerar. É preciso que haja alguma mudança de atitude das pessoas».
Pesquisadora Natacha Ribeiro
 Anualmente 800 quilómetros de floresta em Moçambique desaparecem devido ao aumento de queimadas descontroladas provocadas pelas comunidades para a prática da agricultura e caça de animais de pequeno porte. O jurista Carlos Serra Defende que é urgente parar com a actual situação de devastação das florestas moçambicanas. «Estamos a cortar demais. Estamos a degradar demais as florestas em relação à sua capacidade natural de regeneração».

 Falta de penalizações

 «Temos a lei de florestas que diz que as queimadas são proibidas, mas penso que devia haver penalizações concretas sobre quem é apanhado a fazer queimadas. Faltam acções mais concretas de penalizações», disse o ambientalista Carlos Serra Júnior. Para a fonte, a gestão das florestas, incluindo outras actividades humanas, é deficiente.

Os problemas florestais são agravados pela procura de fontes de energia, como é o caso da lenha, considerando que mais de 80 por cento da população moçambicana socorre-se deste recurso natural.
 «Um outro factor são as queimadas associadas à agricultura de sequeiro, aliado à fraca rede de extensão agrária nacional. Há problemas de equilíbrio ecológico com a perda de determinadas espécies de forma massiva. Não há planos de maneio por parte dos exploradores e, havendo, não são implementados», rematou o estudioso.

O pesquisador salientou que o modelo de exploração de florestas em Moçambique é «insustentável» porque em muitos casos são abatidas várias espécies para se chegar à pretendida. Por isso, aconselhou que se faça uma transição do modelo de exploração de recursos florestais, porque o actual está a desgastar as fontes energéticas. Como forma de combater o cenário de queimadas descontroladas que se verifica em muitos cantos do país, o ambientalista sugere a qualificação de recursos humanos e a melhoria dos materiais, assim como a modernização dos meios tecnológicos. «Não podemos licenciar a exploração de um recurso sobre o qual não temos capacidade de controlo.

O Estado não pode permitir que haja exploradores sem planos de maneio», criticou. Maior fiscalização dos recursos «É preciso fazer muito para combater a corrupção nos sectores da polícia, florestas e alfândegas. Na China há trabalhos para garantir a protecção das suas florestas. Tem de haver comprometimento diplomático sério entre os países para impedir a entrada de madeira ilegal nas fronteiras chinesas», alerta o ambientalista.

Muitas vezes, algumas empresas fecham por violarem a legislação florestal, no entanto, quando retomam as suas actividades, continuam a violar as normas. Por essa razão, o jurista Carlos Serra defende que é urgente parar com a actual situação de devastação das florestas moçambicanas. «Estamos a cortar demais.

Estamos a degradar demais as florestas em relação à sua capacidade natural de regeneração». Potencializar a sensibilização das populações.

 Em relação ao projecto governamental denominado “Um líder, uma floresta”, a pesquisadora da UEM, Natacha Ribeiro, defende que as pessoas devem ser responsabilizadas, porque os projectos não devem ficar entregues à sua sorte. «Eu acho que é uma questão de criar um pouco de responsabilidade nas pessoas.

A floresta é plantada. Quem vai cuidar dela? É preciso estimular as pessoas a envolverem-se nestas actividades». Todavia, reconhece que a tarefa não é nada fácil, daí que aponta como solução a aposta nas campanhas de sensibilização das populações circunvizinhas às florestas. A interlocutora disse que existem diferentes níveis de disseminação de mensagens em que as autoridades governamentais poderiam apostar para combater a situação das queimadas descontroladas. «Na Reserva Nacional do Niassa podia se pensar no teatro, eventos culturais. Eles têm um festival cultural em cada dois anos.
Este tipo de eventos podia ser aproveitado para passar a informação. Haveria também que trabalhar com as escolas. Acho que apostar nas crianças é o mais viável para a mudança de atitude», considerou a pesquisadora Natacha Ribeiro

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