sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Luka Mukhavele



em concerto no tradicional CCFM
‘ Foi sempre meu sonho de infância ser musico’
Estacios Valoi
13/01/10
Das terras do Chilembene sua terra natal Mukhavele ou o ‘Muguijana’ nome que se as pessoas provenientes daquela zona do sul de Moçambique, digamos quem chega a província de Gaza-Macia em direcção a Cidade de Xai-Xai desvia a esquerda e dali em diante esta em solo Guija.
Na altura pensei em assobiar, para ver se ia aos tempos da pastagem do gado, mas bom não ter feito porque nem tudo faz parte da pastorícia.
EV - Como é que foi para ti começar a tocar música tradicional e o teu primeiro instrumento?
LM - De facto os diferentes instrumentos estão ligados a diferentes contextos não só a pastorícia, existem instrumentos ligados a cerimónias religiosas, rituais. Mas o primeiro instrumento que toquei, muitos destes aprendi na infância mesmo que não tivesse o contacto directo com alguns mas já os consumia teoricamente.
Alguns tocava na pratica porque estavam sempre em meu redor e de quando em vez mexia e via qual era a técnica, foi mesmo na infância contudo não sei com que idade mas sempre gostei e andei próximo dele, isto é, onde houvesse um evento musical fazia me presente e absorvia a musica.
Ev- Quando é que começa a expor esta música em palco para o público?
LM -As primeiras vezes que fui ao palco, foi no internato onde vivia no Distrito de Namaacha onde cheguei em 1980 e por volta de 1982 no centro existia um grupo de musica residente que tinha o seu próprio equipamento e regularmente actuava naquele palco ate que um dia pedi para tocar, deixaram me subir e pela primeira vez toquei guitarra eléctrica.
Normalmente em casa tocávamos aquelas violas feita de lata de azeite ou outra coisa, foi com estas que comecei, mais tarde transpus o meu reportório para a guitarra acústica para além do piano acústico que também existia no centro. Mas antes disso fui exposto a musica porque o meu irmão mais velho era seminarista e organista na igreja Católica de Chilembene, tocava, aprendia música e nos fins-de-semana voltava a casa com guitarras, incluindo aquela música na comunidade em particular depois da independência de Moçambique naquelas actividades culturais dos tempos de Samora Machel que a presença era mais ou menos obrigatória ‘convocatória’ onde convergiam grupos musicais da zona e não só onde praticavam diversas danças e cantos para o povo. Aqui aprendi muita coisa.
EV- Musica tradicional. Foi sempre um sonho teu te tornares musico principalmente neste vertente?
LM -Sim sempre foi. Porque sempre que me lembro, desde a minha infância pensei que esta seria a minha profissão, houve tempos em que este sonho parecia estar nublado porque os caminhos são sempre imprevisíveis mas o sonho não morreu. Quando pensei que devia formar me como musico a minha primeira foi como professor de línguas - Inglês, trabalhei nesta área e a seguir em outras como a electricidade mas sempre a fazer música. Naqueles tempos não havia muita opção para fazer musica, a falta de escolas para além da Escola Nacional de Musica. Passei por lá em 1985 onde aprendi a teoria de musica mas nessa altura estava a fazer a formação de professores e nos tempos livres ia a musica ate que chegou uma altura em que não deu para continuar, foi a segunda vez em que fui formalmente exposto a musica de maneira cientifica para alem do Internato de Namaacha onde também aprendi a um pouco sobre a teoria de musica e noções da leitura.
EV- Esta incursão pelo mundo da música, a tradicional apesar da avalanche Samoriana em termos de convocatórias. Acreditaste que havia continuidade ate te formares e prestes a finalizares o mestrado em musicologia?
LM- Foi sempre um sonho e quando a gente sonha o sonho vem. Os outros dizem que o sonho vem dos espíritos que nos vão guiando através do sonho. O que posso dizer é que foi uma chamada, senti um apelo pela música que não consegui resistir apesar de todos os obstáculos que fui encontrando pelo caminho mas o magnetismo foi sempre forte e acabei voltando a música, não sabia se isto iria se materializar mas sonhava que isto se materializasse. Há sonhos que fracassam e outros que vivem.
EV- Actualmente como é que vê a música tradicional em Moçambique?
LM -A musica tradicional é muito rica apenas precisa de ser trabalhada em todas as vertentes possíveis, principalmente na cientifica e artística mas é preciso pesquisar, ir buscar e analisar as coisas separadamente e voltar a uni-las. Naturalmente alguns aspectos da música que vão sobrando devido ao processo de evolução mas actualmente para esta se enquadrar na sociedade e funcionar há algumas coisas que ela tem que deixar atrás que não se enquadram porque a musica sempre foi funcional e continua sendo parte de diversas actividades.
É como as coisas que se fazem, sem música não era possível organizar um ritual, a música também é um ritual é parte integrante do ritual não é só para acompanhar. Não era ‘só entretenimento mesmo que as pessoas depois tocasse e dançassem dentro daquele ritual. É a função da música porque sem ela aquele ritual não iria acontecer e ate hoje nós continuamos a constatar isto mesmo em cerimónias religiosas a exemplo dos ‘Maziones’, na igreja Católica aqui ou no ocidente e que sem música não existiria apesar de constatarmos a oração que é cantada mas sem aquela música, canção aquelas pessoas não rezam. É nesta perspectiva que vejo a música.
EV- Olhando para esta perspectiva, o investimento na musica principalmente a tradicional pareci me insignificante?
LM- De facto há pouco investimento. Penso que tem mais a ver com aspectos de índole políticos, o que deve ou não ser feito. Essas pessoas desenham as suas estratégias de acordo com os seus objectivos, creio que é um erro grave por parte dos fazedores da politica porque a musica tradicional é aquela que mais nos alimenta, que nos da forca, que garante a continuidade ligando o passado presente e o futuro. Musica é um meio de comunicação de educação, de ensino mais ainda um elo de ligação na vida dos homens. As pessoas começam a importar muita música ignorando a autóctone, e começamos a perder muitos valores.
EV-Alunos na música tradicional. Como é que estamos?
LM - Há muitos que aprecem interessados em aprender, talvez não esteja disponível para leccionar as pessoas de forma individual porque penso que é muito tempo para ensinar uma única pessoa. Actualmente estou a trabalhar com a Universidade Eduardo Mondlane e com outro grupo com cerca de 50 alunos e é gratificante ver que aquela informação é consumida por um grupo maior e espaço para que esta tenha continuidade. Os outros vêm a minha oficina aprender a construir instrumentos tradicionais.
Prestes a realizar um concerto que expectativa para o publico?
LM - O concerto vai ser realizado no dia 19 de Fevereiro no centro Cultural Franco Moçambicano e terei os meus acompanhantes afinal de contas quem é que vai a batalha sozinho! De princípio conto com o Filipinho no baixo, Zito, Leonelio na bateria, Pedro Justino da companhia na precursão, Hélio na guitarra, Carolina, Dulce e talvez a Noémia no coro e com Eugénio Santana também da faculdade de musica da UEM no xilofone.
Quanto ao público tem que esperar algo inédito, uma nova experiencia, nova proposta para os artistas, forma de pensar e de organizar a música e para os políticos uma proposta diferente de olhar para a realidade, de digerir a nossa sociedade.

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